A crise da pandemia, os modelos de produção animal e a produção orgânica como alternativa viável

A crise da pandemia, os modelos de produção animal e a produção orgânica como alternativa viável

Por Fabio Ramos – diretor técnico Instituto Brasil Orgânico e diretor da Agrosuisse

Rio de Janeiro, 10 de abril de 2020

A hipótese sobre o aparecimento do novo cornonavírus que relaciona as produções intensivas de pecuária na China, nas grandes fazendas de criação e engorda de suínos, com a contaminação em seres humanos, é relatada no artigo “Biopolítica de uma catástrofe anunciada”, escrito por Angel Luís Lara e traduzido por Simone Paz Hernandes, publicado em 8 de abril de 2020. No texto, é discutida a possível causa da pandemia relacionando os modelos de pecuária industrial e a saúde pública.

O resultado descrito no artigo atesta cientificamente a relação de um modelo intensivo de produção de proteína de origem animal com o aparecimento de doenças nos animais e as ocorrências de epidemias e pandemias, bem como os impactos nos seres humanos.

Durante as décadas de 80 e 90, os resultados observados em diversos casos nunca refletiam os esperados pelo modelo intensivo. Na maioria das vezes, inclusive, promoviam prejuízos financeiros para o proprietário da terra e dos animais. A partir da década de 2000, o desenvolvimento do setor de produção animal foi caracterizado por desenvolver macro cadeias agroalimentares de bovinos, suínos e aves. Por muitas vezes, estas promoveram impactos positivos do ponto de vista técnico e econômico.

É possível observar que estes modelos desenvolvidos nos últimos vinte anos, por muitas vezes e em diversas regiões, alcançaram escalas de produção acima da capacidade de gerenciamento ou do controle de doenças nos animais, como as recentes gripe aviária, peste suína, febre aftosa e outros males de origem animal que ameaçam a saúde humana.

Com exceção das relações diretas entre produtores e consumidores, como no caso das feiras livres, as demais relações são caracterizadas pelos produtores vendendo seus produtos para intermediários compradores (mercados de pequeno, médio, grande varejo; restaurantes e lojas, etc.), que vão ofertar os produtos aos consumidores finais. Neste contexto, as relações permeiam acordos, contratos, entregas, reposições, acertos e desacertos e, ao final, a utilidade dos negócios para ambas as partes. Quando uma das partes não se torna viável, a cadeia se rompe, gerando impactos negativos para o produtor e para o consumidor.

Quando associa-se os resultados dos sistemas de produção animal com o risco sanitário por repetidas situações históricas que atingem a saúde pública, fica clara a necessidade de um questionamento ainda maior sobre os modelos vigentes de produção intensiva.

Os modelos recomendados necessitam de respaldo em fontes técnicas e científicas, como os princípios da agroecologia, os princípios do bem estar animal e os princípios das boas práticas de produção e da preservação do meio ambiente. É necessário também, levar em consideração os princípios da equidade social como pilar central, ou seja, o ser humano.

O sistema de produção orgânica, respaldado na Lei nº 10.831/2003, é uma das respostas que podem ser adotadas pelo poder público e privado buscando atender a sociedade em todas as camadas sociais e nas expectativas de melhorias de condições econômicas.

Neste caso, o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) deve priorizar o desenvolvimento dos modelos orgânicos de produção, os quais são enquadrados em todos os princípios citados e podem contribuir para uma política pública voltada para o desenvolvimento de cadeias agroalimentares sustentáveis.

O modelo da pecuária orgânica é a alternativa que demonstra viabilidade técnica, econômica, ambiental e social, agrupando o conjunto de exigências para a produção de proteína animal e o atendimento a demanda do mercado consumidor, representando um modelo produtivo que reduz o risco de ocorrências, como o aparecimento do novo coronavírus.

Diversos centros de pesquisa e tecnologia no Brasil desenvolvem tecnologias testadas e validadas, e o resultado pode ser constatado pelo número de produtores que adotam o sistema orgânico na produção animal. A oferta de carne, leite e derivados orgânicos, assim como carne de frango e ovos, aumenta a cada ano em todas as regiões do Brasil, principalmente no sul, sudeste e nordeste.

Empresas como a Nestlé e a Danone apostam nos produtos orgânicos como forma de apresentar novos opções ao seu consumidor. Mercados em países desenvolvidos indicam presença significativa de produtos orgânicos de origem animal nas prateleiras dos mercados e feiras livres. O consumidor exige, cada vez mais, saber a procedência dos produtos de origem animal e refutam origens que não se basearam em princípios do bem estar animal. Ou seja, o mercado consumidor aponta para um novo hábito de consumo.

Acredito que o consumidor se tornará mais consciente após a pandemia do novo coronavirus e as cadeias agroalimentares precisarão se adequar a este cenário. Com isto, o modelo de produção pecuário no mundo todo terá que ser revisto e adequado as novas exigências do mercado.