Bioinsumos: Desafios e perspectivas

Bioinsumos: Desafios e perspectivas

O mercado de bioinsumos está em rápida expansão. O setor cresce, aproximadamente, 20% ao ano, segundo a Associação Brasileira de Controle Biológico (ABCBio) e, hoje, já são tratados 10 milhões de hectares com bioinsumos no Brasil.

Os desafios e as perspectivas do uso de bioinsumos no país foram tema de webinar promovido pelo Instituto Brasil Orgânico nesta quarta-feira (15). O evento contou com a mediação de Rogerio Dias, presidente do Instituto, e reuniu Rose Monnerat, pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia; Mariane Vidal, coordenadora do Programa Nacional de Bioinsumos no Ministério da Agricultura (Mapa) e Joe Valle, produtor orgânico.

Joe, que é proprietário da Fazenda Malunga, compartilhou a sua experiência com bioinsumos. Os produtos usados nas lavouras atualmente, são produzidos na própria fazenda.

A cama dos animais da propriedade, por exemplo, é feita a partir de uma mistura de resíduos orgânicos com rochas remineralizadas. Esta mistura passa por um processo de compostagem, com duas “reviragens” por dia, usando rochas sedimentares, com a adição de serragem, carvão e esterco. A mistura é processada e transferida para o processo de compostagem. Quando o composto está maduro, são usados para fazer os nutrientes das plantas.

Valle explica que, nem sempre, o uso de compostos naturais e nutritivos para as plantas impede o ataque de pragas. Neste cenário, o agricultor precisa usar insumos. Entretanto, a falta de produtos orgânicos certificados se torna um desafio.

“A diversidade de insumos que está chegando ao mercado é muito grande. Nem sempre há segurança de que esses produtores tem a origem boa. E mais, as certificadoras têm certas interpretações. A gente pede autorização, a maioria [destes produtos] não é certificada. E enviamos as fichas técnicas para as certificadoras e este processo é delicado, por um uso que muitas vezes é interpretativo”, afirmou.

Rose Monnerat explicou que o controle biológico utiliza organismos vivos para suprimir a população de uma praga específica, tornando-a menos abundante ou menos danosa. Estes microorganismos podem ser vírus, bactérias e fungos, ou nematoides.

“Nós temos uma grande biodiversidade no Brasil e precisamos utilizar essa diversidade para fazer com que, cada vez mais, a gente encontre agentes para fazer controle daqueles insetos ou pragas que estão em nível populacional exagerado, causando danos”, alertou a pesquisadora.

Atualmente, a Embrapa trabalha na coleta, isolamento, identificação, caracterização, multiplicação, conservação, registro e disponibilização de micro-organismos para controle de pragas. As informações são disponibilizadas em bancos de dados para o controle de doenças. Mais de 10 mil cepas de bactérias, fungos e vírus foram catalogadas pelos pesquisadores.

“Se houvesse interesse político, poderíamos dar um salto enorme. O Brasil tem um potencial incrível. Nós temos essa biodiversidade que nos proporciona um fantástico espaço para desenvolver o controle biológico. Se não, não teríamos essa natureza exuberante, com diferentes biomas e ecossistemas. Temos um grande potencial para trabalhar com algo nosso, com tecnologias nacionais”, concordou Rogerio Dias, presidente do Instituto Brasil Orgânico.

Os bioinsumos devem ganhar mais força no mercado com o Programa Nacional de Bioinsumos, criado para ampliar e fortalecer a utilização destes insumos na agricultura, principalmente, orgânica e agroecológica.

Segundo Mariane Vidal, coordenadora do Programa Nacional de Bioinsumos no Ministério da Agricultura (Mapa), o programa possui quatro eixos temáticos e aborda temas como: produção apícola, produção vegetal, fitossanidade, fertilidade do solo, manejo, nutrição de plantas, sementes, produção animal, bioconservantes, entre outros.

“A demanda de criar um Programa capaz de discutir e promover insumos apropriados para os sistemas orgânicos ficou explicitada com a demanda que nasceu no setor de orgânicos”, disse Vidal. “O mercado de bioinsumos no país vai muito além da agricultura orgânica e também beneficiará a agricultura convencional.”

Ao final da apresentação de Mariane Vidal, entretanto, Rogerio Dias apresentou uma grande preocupação do Instituto Brasil Orgânico com relação às recentes mudanças na equipe do Programa de Bioinsumos dentro do MAPA, a começar pela própria Mariane, que deixa a coordenação do programa.

“A gente quer entender o que está por trás do desmantelamento dessa equipe. Um grupo que veio trabalhando durante todos esses meses, até chegar na publicação do decreto. E agora, quando chega na fase efetiva de colocar o programa para funcionar, se desmonta a equipe.”, explicou.

Rogerio disse ainda que pretende levar o questionamento sobre as motivações do desmonte da equipe à reunião extraordinária da Câmara Temática de Orgânicos, na próxima segunda-feira (20).

Assista ao webinar na íntegra.