Multiplicação de microrganismos na propriedade

Inicialmente, há que se separar a fermentação em meio sólido, por exemplo, como em arroz, e em meio líquido, que será objeto das informações abaixo.

Além disso, a multiplicação de microrganismo de forma isolada é muito mais complexa do que aquela na forma de comunidades. Os cuidados devem rigorosos para evitar ao máximo contaminantes biológicos indesejáveis.

  1. Inóculos

Considerando o grande desenvolvimento dos insumos biológicos no país, é natural que haja uma procura proporcional de inóculos de boa procedência. As empresas multiplicadoras de microrganismos valem-se de convênios particulares para sua obtenção. Entretanto, para a multiplicação na propriedade, há muitas limitações para se obter inóculos de boa procedência, tanto em relação a fornecedores como à diversidade de microrganismos.

Seguem algumas informações:

Instituto Biológico do Estado de São Paulo

Departamento de Entomologia – Campinas-SP
Forma de obtenção: Contrato de licenciamento e fornecimento de cepas, somente as especificadas pela COAGRE, sendo uma de Metarhizium anisopliae e outra de Beauveria bassiana.

Fornece placas com os inóculos do microrganismo e assessoria técnica.

Valor do contrato em maio 2026: R$ 15.000,00/ano.

Departamento de Fitopatologia – São Paulo-SP

Forma de obtenção: Contrato de licenciamento e fornecimento de cepas, somente as especificadas pela COAGRE, no caso as cepas de Trichoderma sp

Fornece placas com os inóculos do microrganismo.

Valor do contrato em maio 2026:  R$ 8.500,00/ano (não inclui assessoria técnica).

Em ambos os casos, os contratos preveem o fornecimento de até 6 remessas por ano, de 1 placa de inóculo por cepa de cada microrganismo licenciado.

Quando o contrato do Instituto Biológico é celebrado com empresas multiplicadoras e comercializadoras dos bioprodutos, há o pagamento de royalties ao Instituto à razão de 2% referentes ao valor de venda ao consumidor.

Embrapa Cenargen

Forma de obtenção: Contrato de fornecimento de inóculos, com valor definido por unidade, neste caso ampolas que contêm os inóculos em tiras de papel, somente de cepas com especificação de referência da unidade do centro de pesquisas.

A título ilustrativo, segundo a Cenargen, em maio 2026, uma ampola contendo inóculos, custa R$ 1.162,46; 10 ampolas, R$ 3.467,44. Outras unidades da Embrapa têm formas de fornecimento semelhantes.

Para o comprador, não há como estabelecer o custo final unitário dos inóculos, porque, oriundos do Instituto Biológico ou da Embrapa, precisam ser replicados e podem ter maior ou menor rendimento na replicação. E para isso é necessário o comprador contar minimamente com espaço físico adequado e alguns equipamentos, como capela de fluxo laminar e autoclave.

Considerações

É notória, pelas informações até aqui recebidas, a grande importância do processo de especificação de referência das cepas empreendida pela COAGRE do Mapa, há duas décadas. É preciso retomar este processo, tão benéfico para a agricultura brasileira, e dar foco aos insumos biológicos, contemplando a agricultura de pequenas propriedades.

É preciso uma política pública que incentive empresas a fornecer inóculos de qualidade, que não precisem passar pelo processo de replicação, ou seja, inóculos prontos para uso na multiplicação própria, com custos acessíveis, que facilitará as operações decorrentes.

  1. Meios de Cultura

Diferentemente do caso dos inóculos, há no mercado uma diversidade de opções, tanto para a multiplicação de bactérias, como de fungos. Há opções para serem adquiridos já formulados ou comprados de forma isolada.

  1. Água

O ideal é que seja de boa qualidade e transferida para o reator, passando por filtros microbiológicos.  Se não for possível essa prática, usar água de poços profundos, validada por análise microbiológica.

  1. Equipamentos, instrumentos, materiais de laboratório

No processo de multiplicação, há necessidade de autoclave, capela de fluxo laminar, tanque de fermentação — preferencialmente de aço inoxidável –, soprador de ar com filtro microbiológico. É importante haver um sistema de refrigeração, para conservar a temperatura baixa e assim manter a viabilidade do microrganismo, se o fermentado não for aplicado em seguida. E ainda são necessários outros instrumentos menos onerosos, como medidor de pH e vidraria.

  1. Microrganismos mais promissores para multiplicação

Fungos

É importante fazer distinção quanto à escolha destes microrganismos. Alguns possuem mais de uma função. Por exemplo, uma boa cepa do fungo Trichoderma pode ser antagonista para controlar fungos fitopatogênicos e nematoides, induzir resistência, promover crescimento de plantas e solubilizar nutrientes, por meio de seus metabólitos. É sumamente importante que os fungos tenham competividade e sobrevivência no solo, superando – e muito – outros fungos dos gêneros Poconia e Paecylomices, também usados com a mesma função.

Em relação aos entomopatógenos, há o Metarhizium, a Beauveria e a Isaria, estes dois últimos com maior espectro de controle de pragas. Importante: os conídios (esporos) destes fungos são desativados pela radiação ultravioleta, razão pela qual há limitações com relação ao horário de aplicação e condições atmosféricas; é preciso aplicá-los em condições de umidade elevada e sem sol direto.

Com relação à multiplicação, os fungos precisam de mais cuidados, pois contaminantes como bactérias e leveduras propagam-se com maior rapidez. Existem antibióticos, limitados às bactérias, que podem diminuir esses riscos de contaminação.

Bactérias

O gênero Bacillus é o preferido para multiplicação, em função de ter características mais abrangentes de controle de pragas e promoção de crescimento. Como produz endósporos, é menos sensível à radiação solar e a espécie Bacillus subtilis é uma das mais estudadas e multiplicadas.

Já o Bacillus thuringiensis, conhecido pela sigla Bt, além de produzir os endósporos, também produz cristais que são proteínas tóxicas ao sistema digestivo de alguns insetos. A dificuldade é conseguir uma produção balanceada destes componentes, pois requer alta tecnologia.

Bactérias fixadoras de nitrogênio, como Bradyrhizobium e Azospirillum, com baixos valores agregados, em tese, não são objeto de multiplicação, o suprimento se dá via mercado.

  • Considerações finais

A multiplicação de microrganismos na propriedade é um grande desafio. Desde a aquisição de inóculos até operação de multiplicação, precisa-se de bom controle de qualidade.

Importante para a eficiência de todo o processo é ter uma boa assistência técnica. Pequenos produtores podem se beneficiar, formando associações/cooperativas para desfrutar da tecnologia tão importante na atualidade.

Bem conduzidas as etapas, há o ganha-ganha em saúde, meio ambiente, além de se evitar a importação e aplicação de agrotóxicos, muitas vezes proibidos em seus países originários, mas desembarcados no nosso país. E mais importante, o poder público subsidiar investimentos nessa área tão importante!

Ariclenis Ballarotti

José Pedro Santiago

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