3 visões sobre Formigas-cortadeiras

3 visões sobre Formigas-cortadeiras: Grupo Técnico de Controle Biológico de Formigas-cortadeiras - Instituto Brasil Orgânico, Ana Maria Primavesi e professor Paulo Marçal.

1 – Grupo Técnico de Controle Biológico de Formigas-cortadeirasInstituto Brasil Orgânico

Controle de Formigas-cortadeiras

Karina Dias Amaral1, Cidália Gabriela Santos Marinho2, Universidade Federal de Viçosa; 2. Universidade Federal de São João del-Rei

1. A organização das colônias

As formigas-cortadeiras são insetos que vivem em sociedades complexas, lideradas por uma rainha responsável pela geração de milhares de operárias, que dividem entre si as diferentes tarefas essenciais para a sobrevivência da colônia. Esses insetos cultivam o próprio alimento e, por isso, são considerados formigas agricultoras. Adicionalmente, para o cultivo deste fungo, as formigas precisam fornecer os fragmentos foliares que coletam no campo, alimentando-se dos produtos gerados pela digestão desse material.

Para a manutenção do fungo utilizado na alimentação da colônia, essas formigas, capazes de cortar grandes volumes de folhas, utilizam apenas partes frescas das plantas, o que faz com que causem danos significativos a diversos cultivos agrícolas, promovendo prejuízos ao agricultor.

A colônia se inicia quando uma rainha fecundada, a tanajura, perde as asas e inicia a escavação do ninho logo após o voo nupcial. O voo nupcial é o período do ano em que machos e fêmeas saem em revoada para a cópula. Após o acasalamento, o macho morre, e a rainha dá início a um novo formigueiro. Assim que forma sua primeira câmara no solo, a rainha começa a colocar ovos e a cultivar um fragmento do fungo trazido da colônia onde nasceu, até que as primeiras operárias nascem e passam a coletar folhas para o cultivo. Cerca de três anos depois, esse ninho já conta com diversas câmaras de fungo e milhares de formigas.

Nessa fase, a colônia também já produziu suas próprias tanajuras durante a revoada, dando origem a novas colônias (Figura 1).

As operárias são divididas em grupos com diferentes tamanhos, cada um responsável por funções específicas, como defesa, coleta de folhas, cuidado com os indivíduos jovens e com a rainha, além da manutenção do ninho. Por serem muito aparentadas geneticamente e viverem em contato constante, essas formigas estão sempre expostas ao risco de doenças e infecções que podem se espalhar rapidamente entre os membros da colônia. Porém, elas desenvolveram mecanismos altamente eficientes de proteção contra esses perigos.

Figura 1: Ciclo de fundação, estabelecimento e crescimento de uma colônia de formiga-cortadeira (Imagem gerada com IA).

Figura 1: Ciclo de fundação, estabelecimento e crescimento de uma colônia de formiga-cortadeira (Imagem gerada com IA).

2. Controle biológico natural das formigas-cortadeiras

O controle biológico natural das formigas-cortadeiras é bastante eficiente. Estima-se que, das fêmeas aladas que revoam durante o voo nupcial, apenas 2% tenham sucesso na fundação de colônias, devido à ação de predadores. Os principais predadores das tanajuras são as aves, incluindo espécies domésticas, como galinhas e codornas, além de besouros e espécies de formigas predadoras. Além disso, o período de fundação da colônia é bastante crítico para as rainhas, que podem morrer de inanição, uma vez que permanecem por um longo período sem alimentação, e podem até mesmo ser contaminadas por fungos patogênicos presentes no solo.

3. As dificuldades de controle

Apesar de a taxa de sucesso na fundação das colônias pelas rainhas ser muito baixa, as poucas fêmeas que conseguem estabelecer suas colônias podem produzir milhares de indivíduos e viver por até vinte e cinco anos. Assim, as rainhas devem ser o principal alvo das medidas de controle.

O sistema de defesa dessas formigas envolve tanto respostas individuais quanto comportamentos coletivos, ou seja, ações em grupo que ajudam a evitar a propagação de patógenos. As formigas se limpam constantemente e realizam a limpeza de outras companheiras, além de evitarem contato com indivíduos doentes. Elas também são bastante criteriosas na seleção do material vegetal levado para o interior do ninho, evitando plantas ou fragmentos que possam apresentar substâncias tóxicas, conseguindo inclusive remover partes do fungo que estejam contaminados, evitando a morte das suas colônias.

4. Estratégias de controle

A principal estratégia de combate a esses insetos é o uso de iscas formicidas contendo produtos químicos, e essa técnica vem sendo utilizada há muito tempo. Entretanto, esses compostos podem causar prejuízos significativos ao ecossistema.

Por esse motivo, a busca por agentes de controle alternativos e eficientes, em substituição aos compostos químicos, tem sido constante nas pesquisas com formigas-cortadeiras. No entanto, superar a complexidade organizacional desses insetos ainda representa um grande desafio, assim como desenvolver produtos eficientes em larga escala e economicamente viáveis, a ponto de competir com as iscas com produtos químicos disponíveis atualmente no mercado.

Além disso, o mesmo processo de seleção realizado com o material vegetal também ocorre com as iscas formicidas. Durante a inspeção desse material, as formigas podem perceber a ação nociva dos ingredientes ativos presentes nas iscas e evitar seu transporte. Essa percepção também pode ocorrer após o transporte para o ninho, acarretando a devolução do material após a detecção de sua ação tóxica.

Portanto, encontrar uma substância que possua ação formicida e/ou fungicida e que não seja percebida pelos mecanismos de defesa das formigas representa um grande desafio.

5. Os bioinsumos

Nesse contexto, os bioinsumos surgem como uma alternativa promissora para o manejo de formigas-cortadeiras, especialmente diante da crescente preocupação com os impactos ambientais causados pelos inseticidas químicos convencionais. Produtos desenvolvidos a partir de microrganismos, extratos vegetais e outras substâncias de origem biológica podem oferecer formas de controle mais sustentáveis, seletivas e menos prejudiciais ao ambiente.

Além disso, o estudo das interações naturais entre esses insetos, seus patógenos e o ambiente pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias inovadoras e mais compatíveis com a conservação dos ecossistemas. Embora ainda haja desafios relacionados à eficiência, à aplicação em larga escala e à viabilidade econômica desses produtos, o avanço das pesquisas na área aponta para um futuro em que o controle de formigas-cortadeiras possa ser realizado de maneira mais equilibrada e ambientalmente responsável.

6. Algumas recomendações

Ainda não temos uma nova ferramenta concreta e eficiente que poderíamos recomendar aos produtores para conseguirem produzir alimentos orgânicos na presença das formigas-cortadeiras. Mas podemos recomendar algumas medidas, que irão dificultar o estabelecimento de novas colônias no campo ou o acesso das formigas à parte aérea das plantas (Figura 2).

A manutenção de faixas ou de fragmentos de mata nativa constitui a primeira das recomendações. Ao manter a mata nativa, dificultamos o estabelecimento de novas colônias de formigas-cortadeiras, isto porque, com vegetação sobre o solo, a tanajura, por ocasião da revoada, não consegue perfurar o solo para fundar uma nova colônia.  Além disso, esses locais abrigam organismos que predam ou competem com as cortadeiras, auxiliando no seu controle.

Outra recomendação é a utilização de barreiras físicas no tronco de árvores, caso seja uma cultura perene, para impedir que as formigas tenham acesso às folhas. Para isso podemos utilizar garrafas pet invertidas, ou o chapéu-chinês ou até mesmo graxa ao redor do tronco das árvores.

A remoção manual de colônias jovens recém-estabelecidas também pode ser uma alternativa viável. Essas colônias são pouco profundas, o que permite sua escavação e a remoção das rainhas, eliminando o ninho. Porém, pode ser uma alternativa trabalhosa, pois as novas colônias podem estar distribuídas por uma grande área.

Figura 2: Principais estratégias de manejo de formigas-cortadeiras no cultivo orgânico (Imagem gerada como IA).

O controle das formigas-cortadeiras ainda é uma operação realizada, em grande parte, de forma manual, o que acarreta a necessidade de mão de obra qualificada para minimizar os erros operacionais. Os principais problemas que podem ocorrer durante o controle desses insetos por meio de iscas são:

  1. Cálculo incorreto da dose de isca por ninho: as iscas formicidas possuem uma dose correta a ser aplicada por ninho, que pode variar de 8 g a 12 g de isca/m2 de área de terra solta sobre os ninhos. A medição correta dessa área, contabilizando montes de terra que possam estar desconectados do monte principal, é fundamental. Erros no cálculo podem gerar a aplicação de doses abaixo ou acima do necessário. Doses baixas podem provocar o “amoamento” dos ninhos, isto é, as colônias passam por um período de redução da atividade; porém, a rainha, que nesses casos não é atingida, retoma a produção de novas operárias, e a atividade do ninho retorna de forma ainda mais intensa após algum tempo. Doses muito elevadas, por outro lado, podem provocar a percepção do ingrediente ativo pelas operárias, acarretando a devolução das iscas para fora do ninho após o transporte, além do desperdício de material.
  1. Aplicação da isca em local incorreto: as iscas formicidas devem ser aplicadas em local adequado, isto é, próximo aos olheiros de alimentação (entradas dos ninhos que possuem fragmentos de folhas e não são utilizados para remoção de terra pelas formigas) ou próximo às trilhas de forrageamento. As iscas jamais devem ser aplicadas dentro dos olheiros ou sobre as trilhas de forrageamento. Quando isso ocorre, as formigas consideram o material como um obstáculo e removem as iscas das galerias ou das trilhas, em vez de transportá-las para o interior dos ninhos. As iscas também não devem ser aplicadas sobre o monte de terra solta, pois esses locais são destinados à remoção de material da colônia, e não à entrada das formigas.
  1. Forma incorreta de deposição da isca: as iscas formicidas precisam ser depositadas no solo de maneira concentrada, ou seja, o material não deve ser espalhado. As formigas recrutam operárias e formam trilhas até o material que será carregado para o ninho, o que não ocorrerá caso a isca esteja dispersa na área de forrageamento.
  1. Armazenamento incorreto do material: as iscas formicidas precisam estar íntegras e secas, para serem corretamente transportadas pelas formigas. Portanto, devem ser armazenadas em local seco. Além disso, a aplicação não deve ocorrer em dias muito úmidos ou chuvosos, pois essas condições podem comprometer a estabilidade do material.

Pesquisadores têm realizado estudos com o objetivo de desenvolver técnicas alternativas ao controle químico das formigas-cortadeiras. Entretanto, fica claro que muitas são as barreiras impostas por esse grupo de insetos que há milhões de anos implementa em suas colônias um modo de vida extremamente complexo e que nos desafia diariamente na busca pelo seu controle.

Membros do Grupo Técnico de Controle Biológico de Formigas-cortadeiras

Engo Agro Alexandre Harkaly
QUIMA Certificações
Instituto Brasil Orgânico

Dra. Cidália Gabriela Marinho
Universidade Federal de São João Del Rei

Dr. Ednaldo da Silva Araujo
Embrapa Agrobiologia

Zootecnista Fabio Ramos
Agrosuisse Consultoria
Instituto Brasil Orgânico

Dr. Fernando Valicente
Embrapa Milho e Sorgo

Dr. José Antonio Espindola
EMBRAPA Agrobiologia
Instituto Brasil Orgânico

Engo Agro José Pedro Santiago
Consultor
Instituto Brasil Orgânico

Dra. Karina Dias Amaral
Universidade Federal de Viçosa

Dr. Ricardo Cerveira
IBS Instituto BioSistêmico
Instituto Brasil Orgânico

Dr. Ricardo Fujihara
UFSCAR – Araras

Dr. Wilson Reis Filho
Epagri – Estação Experimental Itajaí


2 – Formigas por Ana Maria Primavesi

Formiga, como qualquer outro inseto, se nutre de insetos, ou açúcar ou plantas. O que interessa para nós não é a formiga correição, mas a saúva.

A saúva é herbívora, então onde não tem muitos insetos no solo, onde a formiga carnívora não consegue sobreviver e aparece a herbívora, porque onde aparece a carnívora ela não deixa a saúva, ela a persegue.

A saúva não come a planta. Ela leva a planta para casa, mastiga e espalha no canteiro dela, e cria nestes canteiros, fungos. Depois, ela come a cabecinha do fungo. A formiga jardineira tem que cortar esta cabecinha do fungo tantas vezes até que ela fique maior. Mas esta bolinha tem toda a força da cabecinha inteira, então cada formiga recebe uma bolinha deste fungo mas com toda a força energética de um cogumelo pequeno que ela não poderia comer, então ela dá muita força para a formiga.

Mas o ponto fraco da saúva é: o fungo, como todos os fungos e bactérias, não consegue atacar proteínas, aminoácidos sim. Proteínas têm 4 aminoácidos numa determinada estrutura. Se a proteína está formada, não tem mais fungo que pode comer. Muitas vezes você vê que a formiga começou a cortar, por exemplo, folhas de uma roseira, de uma árvore, mas abandonam e foram pra frente porque a amostra que elas levaram para a jardineira não produzia. Ela disse: ‘não senhor, isso aqui não pode levar porque tem proteína formada, o nosso fungo não come.’

Então o combate, combate não, mas evitar a formiga, é deixar a planta formar as proteínas.

Proteínas se formam em 3 aminoácidos em base de nitrogênio e um aminoácido em forma de enxofre. Nitrogênio normalmente tem, o que tá faltando muitas vezes é o enxofre mas pode ser que o nitrogênio não é absorvido por causa da deficiência de molibdênio. Se eu adubo com molibdênio, levam 3 meses, não é imediatamente, mas 3 meses mais tarde não tem mais formiga que corte porque nós temos que fazer tudo para que as plantas formem proteínas.

Se elas conseguem formar, se por exemplo vier uma chuva por 3, 4 dias e a planta ficar amarela, é porque não tinha proteína. Se tá com proteína formada, ela come e fica mais bonita com a chuva.

Saúvas (Atta spp.)

A saúva se assenta em terras onde desapareceram as formigas carnívoras.
Elas cortam folhas, levam-nas ao seu jardim, onde as usam como meio de cultura para seus fungos, que ali plantam e dos quais vivem. Folhas que formaram proteínas elas não cortam. Quando existem poucos sauveiros, pode-se fazer o combate plantando-se gergelim ao redor. As saúvas levam as folhas para suas hortas, mas seus fungos não crescem nestas folhas e as saúvas morrem de fome. Porém, elas somente levam folhas de gergelim nativo, galhado. Não tocam em folhas do gergelim geneticamente melhorado para a colheita mecânica.

Outro sistema é o de jogar mandioca-brava ralada ao redor dos olheiros, que elas levam, ficando intoxicadas pelo ácido cianídrico. Para proteger alguma roseira ou canteiro da invasão de saúvas, espalha-se terra de sauveiro ao redor, podendo usar também farinha de ossos ou carvão moído. Nenhuma saúva passa por aí. Em árvores pode-se amarrar lã de ovelha, onde não conseguem passar. Se houver muitas saúvas estes métodos são insuficientes.

In: Manejo Ecológico de Pragas. Editora Expressão Popular.

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Veja também o filme sobre a Vida do Solo, concebido e realizado por Ana Primavesi em:


3 – SAÚVAS – Atta spp.Por Prof. Paulo Marçal Fernandes

UFG | Orgânicos Pudica

PAPEL ECOLÓGICO

Os sauveiros desempenham muitas funções ecológicas importantes. A construção do ninho que abriga a colônia ao longo de vários anos pode chegar a milhares de câmaras para o fungo e resíduos e promove a melhoria das condições físicas, químicas e, principalmente biológicas, do solo. O solo profundo infértil é trazido para a superfície e exposto a ação das intempéries e, ao se misturar com materiais vegetais, sofre ação de micro e macroorganismos.  Além disso, elas levam o material vegetal forrageado na superfície para as câmaras profundas no solo. Trazem o solo profundo para a vida e levam vida para o solo profundo.  Considerando que este processo é realizado há milhões de anos, podemos afirmar que as saúvas estão entre os agentes responsáveis pela construção da fertilidade dos solos agrícolas atuais.

Ao forragear e desfolhar plantas, abrem clareiras permitindo maior entrada de luz em uma mata e favorecem o desenvolvimento de outras plantas, além de também forragearem e dispersarem sementes. Sua ação na melhoria das condições físicas, químicas e biológicas dos solos favorecem o desenvolvimento das plantas, muitas das quais serão utilizadas para seu próprio forrageamento. Em razão de suas colônias extremamente numerosas, os cupins, as saúvas e outras formigas são alimentos importantes para outros animais durante o ano e especialmente durante as revoadas.  A cada ano, no início do período chuvoso, os sauveiros “maduros” liberam uma quantidade fabulosa de indivíduos alados reprodutores: tanajuras e bitus. A maioria deles são predados principalmente por pássaros. Muitas espécies de pássaros se reproduzem neste período pela grande disponibilidade de alimentos. Em certas regiões do Brasil, as tanajuras são consumidas como iguarias por seres humanos.

AGRICULTORAS SUSTENTÁVEIS

As saúvas utilizam o material vegetal forrageado para o preparo de substrato        para   o cultivo do fungo Leucocoprinus gongylophorus (Leucoagaricus gongylophorus) que produz gongilídios, intumescências hifais ricas em nutrientes das quais as formigas se alimentam.  Este fungo pertence à família  Agaricaceae , mesma família dos cogumelos conhecidos como “champignon” ou “paris”.

 Os L.  gongylophorus dependem completamente das formigas para sobreviver, com as operárias alimentando-o com matéria vegetal cortada e as novas rainhas carregando um pedaço de micélio em sua bolsa infrabucal (uma estrutura especializada dentro da boca) para fundar uma nova colônia.

Estima-se que  este fungo tenha sido propagado  continuamente   pelas formigas durante  23 milhões de anos. Isto foi possível em razão de relações  simbióticas complexas que incluem, além das saúvas e do fungo, bactérias e leveduras presentes na cutícula das formigas e que produzem antibióticos e outras substâncias que protegem as câmaras de fungos.  Além destas simbioses, as saúvas produzem substâncias de defesa em suas glândulas salivares e outras glândulas  corporais ampliando sua capacidade de defesas químicas.

Desta forma, entendemos como as saúvas conseguem cultivar um fungo puro dentro dos solos, ricos em microorganismos, incluindo muitos fungos micoparasitas. Cada sauveiro é uma “fazenda” de produção de micro cogumelos perfeitos, com muita organização social, divisão de tarefas e interações de múltiplos agentes que trabalham em perfeita harmonia buscando sempre o interesse  coletivo, sendo assim plenamente sustentável.

Entretanto, a ação humana interfere profundamente neste equilíbrio ao simplicar e empobrecer os ecossistemas com desmatamentos e cultivos agrícolas.  Quase sempre sem outras opções para forrageamento, as saúvas passam a desfolhar tambem as espécies cultivadas. Se tornam um problema fitossanitário importante em todos ambientes, desde grandes áreas de cultivos até quintais em cidades.

Uma frase famosa do século passado: “Ou o Brasil acaba com as saúvas ou as saúvas acabam com o Brasil” mostra como era equivocada  a percepção das pessoas sobre estes insetos. Muito ao contrário desta frase, devemos respeitar e admirar as saúvas e  entender que nossa estratégia de manejo se baseia na convivência temporária, pois passaremos e elas continuarão soberanas neste planeta. 

MANEJO EM SISTEMAS ORGÂNICOS DE PRODUÇÃO ESPÉCIES

O primeiro passo para o manejo de saúvas em áreas orgânicas ou convencionais é a identificação da espécie presente. Em Goiás, as duas principais espécies são: Atta sexdens rupropilosa e Atta laevigata

A saúva limão A. sexdens rubropilosa apresenta grande preferência pelas dicotiledôneas e podem ser identificadas pelos soldados que, quando esmagados, exalam odor forte entre limão e capim cidreira.  Constroem seus ninhos preferencialmente em áreas sombreadas, sob árvores ou nas margens de áreas preservadas. A terra solta se apresenta mais concentrada e elevada e com olheiros típicos afunilados.

A saúva “cabeça-de-vidro” A. laevigata apresenta a mais ampla distribuição geográfica no país, sendo encontrada do norte do Paraná ao Amazonas e Pernambuco. Apresenta também certa preferência pelas dicotiledôneas, mas atacam gramíneas como a cana-de-açúcar, arroz, milho e pastagens,sendo facilmente identificadas pelo aspecto brilhante da cabeça de seus soldados. Constroem seus ninhos preferencialmente em áreas abertas. A terra solta se apresenta menos concentrada e menos elevada e com olheiros variáveis.

MEDIDAS ORGÂNICAS DE CONTROLE

Há cerca de 20 anos iniciamos as pesquisas buscando alternativas orgânicas de controle de saúvas. Orientamos dois doutorados e um mestrado sobre o tema, além de diversas pesquisas com produtos comerciais em formulações pó seco ou como iscas atrativas. Folhas de plantas como batata doce, gergelim e mamona foram oferecidas a sauveiros em laboratório. Bioisca, fungos entomopatogênicos, Trichoderma e outros também foram avaliados.

Gergelim – sauveiros que receberam somente  gergelim reduziram o desenvolvimento do fungo. Inviável a campo pois sauveiros não forrageiam somente um tipo de planta

Batata doce – foi inócuo.

Mamona  – eliminou os sauveiros em poucos dias.  Entretanto os sauveiros de campo não forrageiam mamona. Desenvolver iscas granuladas com folhas de mamona e polpa cítrica seria promissor.

Enxofre em pó – Quando aplicado sobre o fungo de sauveiros em laboratório observamos que todo fungo foi descartado e as colônias não foram capazes de se reorganizarem.  A dificuldade a campo é realizar uma aplicação capaz de atingir a maioria das câmaras de fungo. Se aplicado corretamente pode paralisar temporariamente o sauveiro. Esta é alternativa (paliativa) que utilizamos atualmente. Outros produtos em pó podem apresentar resultados similares: cal hidratada ou virgem, caulin, talco, etc.

Bioisca – vários testes e nenhum resultado de controle

BiológicosBeauveria bassiana, Metarhizium anisopliae, Trichoderma spp. Foram ineficazes em laboratório e campo.

A partir do entendimento dos diversos mecanismos de defesa dos sauveiros, desenvolvidos ao longo de milhões de anos, e dos resultados  obtidos nos diversos estudos e pesquisas realizados, concluímos que o controle destes insetos não será tarefa fácil. Acreditamos que a melhor estratégia é a utilização extrato de plantas na forma de iscas granuladas atrativas para tentar superar as defesas das colônias e atingir a casta das jardineiras, sem as quais o fungo perece e a colônia se desorganizam.  Assunto para muitas pesquisas ainda.

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