Grupo Técnico de Controle Biológico de Formigas-cortadeiras
Instituto Brasil Orgânico
Karina Dias Amaral1, Cidália Gabriela Santos Marinho2, Universidade Federal de Viçosa; 2. Universidade Federal de São João del-Rei
1. A organização das colônias
As formigas-cortadeiras são insetos que vivem em sociedades complexas, lideradas por uma rainha responsável pela geração de milhares de operárias, que dividem entre si as diferentes tarefas essenciais para a sobrevivência da colônia. Esses insetos cultivam o próprio alimento e, por isso, são considerados formigas agricultoras. Adicionalmente, para o cultivo deste fungo, as formigas precisam fornecer os fragmentos foliares que coletam no campo, alimentando-se dos produtos gerados pela digestão desse material.
Para a manutenção do fungo utilizado na alimentação da colônia, essas formigas, capazes de cortar grandes volumes de folhas, utilizam apenas partes frescas das plantas, o que faz com que causem danos significativos a diversos cultivos agrícolas, promovendo prejuízos ao agricultor.
A colônia se inicia quando uma rainha fecundada, a tanajura, perde as asas e inicia a escavação do ninho logo após o voo nupcial. O voo nupcial é o período do ano em que machos e fêmeas saem em revoada para a cópula. Após o acasalamento, o macho morre, e a rainha dá início a um novo formigueiro. Assim que forma sua primeira câmara no solo, a rainha começa a colocar ovos e a cultivar um fragmento do fungo trazido da colônia onde nasceu, até que as primeiras operárias nascem e passam a coletar folhas para o cultivo. Cerca de três anos depois, esse ninho já conta com diversas câmaras de fungo e milhares de formigas.
Nessa fase, a colônia também já produziu suas próprias tanajuras durante a revoada, dando origem a novas colônias (Figura 1).
As operárias são divididas em grupos com diferentes tamanhos, cada um responsável por funções específicas, como defesa, coleta de folhas, cuidado com os indivíduos jovens e com a rainha, além da manutenção do ninho. Por serem muito aparentadas geneticamente e viverem em contato constante, essas formigas estão sempre expostas ao risco de doenças e infecções que podem se espalhar rapidamente entre os membros da colônia. Porém, elas desenvolveram mecanismos altamente eficientes de proteção contra esses perigos.

Figura 1: Ciclo de fundação, estabelecimento e crescimento de uma colônia de formiga-cortadeira (Imagem gerada com IA).
2. Controle biológico natural das formigas-cortadeiras
O controle biológico natural das formigas-cortadeiras é bastante eficiente. Estima-se que, das fêmeas aladas que revoam durante o voo nupcial, apenas 2% tenham sucesso na fundação de colônias, devido à ação de predadores. Os principais predadores das tanajuras são as aves, incluindo espécies domésticas, como galinhas e codornas, além de besouros e espécies de formigas predadoras. Além disso, o período de fundação da colônia é bastante crítico para as rainhas, que podem morrer de inanição, uma vez que permanecem por um longo período sem alimentação, e podem até mesmo ser contaminadas por fungos patogênicos presentes no solo.
3. As dificuldades de controle
Apesar de a taxa de sucesso na fundação das colônias pelas rainhas ser muito baixa, as poucas fêmeas que conseguem estabelecer suas colônias podem produzir milhares de indivíduos e viver por até vinte e cinco anos. Assim, as rainhas devem ser o principal alvo das medidas de controle.
O sistema de defesa dessas formigas envolve tanto respostas individuais quanto comportamentos coletivos, ou seja, ações em grupo que ajudam a evitar a propagação de patógenos. As formigas se limpam constantemente e realizam a limpeza de outras companheiras, além de evitarem contato com indivíduos doentes. Elas também são bastante criteriosas na seleção do material vegetal levado para o interior do ninho, evitando plantas ou fragmentos que possam apresentar substâncias tóxicas, conseguindo inclusive remover partes do fungo que estejam contaminados, evitando a morte das suas colônias.
4. Estratégias de controle
A principal estratégia de combate a esses insetos é o uso de iscas formicidas contendo produtos químicos, e essa técnica vem sendo utilizada há muito tempo. Entretanto, esses compostos podem causar prejuízos significativos ao ecossistema.
Por esse motivo, a busca por agentes de controle alternativos e eficientes, em substituição aos compostos químicos, tem sido constante nas pesquisas com formigas-cortadeiras. No entanto, superar a complexidade organizacional desses insetos ainda representa um grande desafio, assim como desenvolver produtos eficientes em larga escala e economicamente viáveis, a ponto de competir com as iscas com produtos químicos disponíveis atualmente no mercado.
Além disso, o mesmo processo de seleção realizado com o material vegetal também ocorre com as iscas formicidas. Durante a inspeção desse material, as formigas podem perceber a ação nociva dos ingredientes ativos presentes nas iscas e evitar seu transporte. Essa percepção também pode ocorrer após o transporte para o ninho, acarretando a devolução do material após a detecção de sua ação tóxica.
Portanto, encontrar uma substância que possua ação formicida e/ou fungicida e que não seja percebida pelos mecanismos de defesa das formigas representa um grande desafio.
5. Os bioinsumos
Nesse contexto, os bioinsumos surgem como uma alternativa promissora para o manejo de formigas-cortadeiras, especialmente diante da crescente preocupação com os impactos ambientais causados pelos inseticidas químicos convencionais. Produtos desenvolvidos a partir de microrganismos, extratos vegetais e outras substâncias de origem biológica podem oferecer formas de controle mais sustentáveis, seletivas e menos prejudiciais ao ambiente.
Além disso, o estudo das interações naturais entre esses insetos, seus patógenos e o ambiente pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias inovadoras e mais compatíveis com a conservação dos ecossistemas. Embora ainda haja desafios relacionados à eficiência, à aplicação em larga escala e à viabilidade econômica desses produtos, o avanço das pesquisas na área aponta para um futuro em que o controle de formigas-cortadeiras possa ser realizado de maneira mais equilibrada e ambientalmente responsável.
6. Algumas recomendações
Ainda não temos uma nova ferramenta concreta e eficiente que poderíamos recomendar aos produtores para conseguirem produzir alimentos orgânicos na presença das formigas-cortadeiras. Mas podemos recomendar algumas medidas, que irão dificultar o estabelecimento de novas colônias no campo ou o acesso das formigas à parte aérea das plantas (Figura 2).
A manutenção de faixas ou de fragmentos de mata nativa constitui a primeira das recomendações. Ao manter a mata nativa, dificultamos o estabelecimento de novas colônias de formigas-cortadeiras, isto porque, com vegetação sobre o solo, a tanajura, por ocasião da revoada, não consegue perfurar o solo para fundar uma nova colônia. Além disso, esses locais abrigam organismos que predam ou competem com as cortadeiras, auxiliando no seu controle.
Outra recomendação é a utilização de barreiras físicas no tronco de árvores, caso seja uma cultura perene, para impedir que as formigas tenham acesso às folhas. Para isso podemos utilizar garrafas pet invertidas, ou o chapéu-chinês ou até mesmo graxa ao redor do tronco das árvores.
A remoção manual de colônias jovens recém-estabelecidas também pode ser uma alternativa viável. Essas colônias são pouco profundas, o que permite sua escavação e a remoção das rainhas, eliminando o ninho. Porém, pode ser uma alternativa trabalhosa, pois as novas colônias podem estar distribuídas por uma grande área.

Figura 2: Principais estratégias de manejo de formigas-cortadeiras no cultivo orgânico (Imagem gerada como IA).
O controle das formigas-cortadeiras ainda é uma operação realizada, em grande parte, de forma manual, o que acarreta a necessidade de mão de obra qualificada para minimizar os erros operacionais. Os principais problemas que podem ocorrer durante o controle desses insetos por meio de iscas são:
- Cálculo incorreto da dose de isca por ninho: as iscas formicidas possuem uma dose correta a ser aplicada por ninho, que pode variar de 8 g a 12 g de isca/m2 de área de terra solta sobre os ninhos. A medição correta dessa área, contabilizando montes de terra que possam estar desconectados do monte principal, é fundamental. Erros no cálculo podem gerar a aplicação de doses abaixo ou acima do necessário. Doses baixas podem provocar o “amoamento” dos ninhos, isto é, as colônias passam por um período de redução da atividade; porém, a rainha, que nesses casos não é atingida, retoma a produção de novas operárias, e a atividade do ninho retorna de forma ainda mais intensa após algum tempo. Doses muito elevadas, por outro lado, podem provocar a percepção do ingrediente ativo pelas operárias, acarretando a devolução das iscas para fora do ninho após o transporte, além do desperdício de material.
- Aplicação da isca em local incorreto: as iscas formicidas devem ser aplicadas em local adequado, isto é, próximo aos olheiros de alimentação (entradas dos ninhos que possuem fragmentos de folhas e não são utilizados para remoção de terra pelas formigas) ou próximo às trilhas de forrageamento. As iscas jamais devem ser aplicadas dentro dos olheiros ou sobre as trilhas de forrageamento. Quando isso ocorre, as formigas consideram o material como um obstáculo e removem as iscas das galerias ou das trilhas, em vez de transportá-las para o interior dos ninhos. As iscas também não devem ser aplicadas sobre o monte de terra solta, pois esses locais são destinados à remoção de material da colônia, e não à entrada das formigas.
- Forma incorreta de deposição da isca: as iscas formicidas precisam ser depositadas no solo de maneira concentrada, ou seja, o material não deve ser espalhado. As formigas recrutam operárias e formam trilhas até o material que será carregado para o ninho, o que não ocorrerá caso a isca esteja dispersa na área de forrageamento.
- Armazenamento incorreto do material: as iscas formicidas precisam estar íntegras e secas, para serem corretamente transportadas pelas formigas. Portanto, devem ser armazenadas em local seco. Além disso, a aplicação não deve ocorrer em dias muito úmidos ou chuvosos, pois essas condições podem comprometer a estabilidade do material.
Pesquisadores têm realizado estudos com o objetivo de desenvolver técnicas alternativas ao controle químico das formigas-cortadeiras. Entretanto, fica claro que muitas são as barreiras impostas por esse grupo de insetos que há milhões de anos implementa em suas colônias um modo de vida extremamente complexo e que nos desafia diariamente na busca pelo seu controle.
Membros do Grupo Técnico de Controle Biológico de Formigas-cortadeiras
Engo Agro Alexandre Harkaly
QUIMA Certificações
Instituto Brasil Orgânico
Dra. Cidália Gabriela Marinho
Universidade Federal de São João Del Rei
Dr. Ednaldo da Silva Araujo
Embrapa Agrobiologia
Zootecnista Fabio Ramos
Agrosuisse Consultoria
Instituto Brasil Orgânico
Dr. Fernando Valicente
Embrapa Milho e Sorgo
Dr. José Antonio Espindola
EMBRAPA Agrobiologia
Instituto Brasil Orgânico
Engo Agro José Pedro Santiago
Consultor
Instituto Brasil Orgânico
Dra. Karina Dias Amaral
Universidade Federal de Viçosa
Dr. Ricardo Cerveira
IBS Instituto BioSistêmico
Instituto Brasil Orgânico
Dr. Ricardo Fujihara
UFSCAR – Araras
Dr. Wilson Reis Filho
Epagri – Estação Experimental Itajaí

